Dobras e Relevos em Estruturas Dobradas - Sobre Geologia

11/03/2018

Dobras e Relevos em Estruturas Dobradas

Cadeias de montanhas são estruturas muito conhecidas, suas paisagens são exploradas por séries, filmes e livros. Mas o que pouca gente sabe é que sua formação é extremamente relacionada com outra belíssima estrutura: as dobras. Um exemplo são os Alpes europeus, as suas montanhas tem a formação relacionada a dobras e  seu cenário invernal é até representada na embalagem do chocolate brasileiro “Alpino”. O artigo de hoje trata das dobras e dos relevos derivados delas, incluindo detalhamento da gênese de ambos.
Dobra em rochas carbonáticas, localizada no País Basco. Foto por: Thibault Cavailhes
Dobras são deformações que ocorrem frequentemente na superfície terrestre por conta do movimento das placas tectônicas, o que pode gerar cordilheiras. Essas formações, com o tempo, sofrem com os processos exógenos (processos que ocorrem na superfície terrestre, relacionados a fatores como o clima, como, por exemplo, a erosão) e evoluem tornando-se relevos com características muito específicas. Esses relevos variam muito de acordo com o tipo de dobramento que ocorreu e as características do ambiente onde ele se encontra. Alguns tipos de relevo podem ocorrer em diversas partes do mundo, seguindo um padrão de evolução, outros podem ter características tão específicas que serão exclusivos de alguns lugares.

Dobras                                                        
Dobras são formadas em rochas sedimentares, ígneas ou metamórficas principalmente por tectonismo em regiões de convergência de placas tectônicas. As forças compressivas agem nas rochas já formadas que se encontram em grandes profundidades da crosta em condições de altas pressões e temperaturas, o que explica a deformação dúctil, já que as condições superficiais não poderiam propiciar essa característica plástica do material rochoso. Então, essa superfície anteriormente plana da rocha, que pode ser, por exemplo, um acamamento sedimentar ou uma foliação metamórfica, forma ondulações características desse tipo de estrutura.
Os elementos da dobra são muito importantes para a compreensão dessas estruturas, os principais são:
  • Antiforme: dobra com convexidade voltada para cima;
  • Sinforme: dobra com convexidade voltada para baixo;
  • Anticlinal: dobra que apresenta a camada mais antiga na sua parte interna;
  • Sinclinal: dobra que apresenta a camada mais nova na sua parte interna;
  • Linha de charneira: representa a união dos pontos de curvatura máxima de uma dobra;
  •  Plano axial: divide a dobra pela metade passando pela linha de charneira;
  •  Flancos: superfícies onduladas que se encontram entre as charneiras de uma anticlinal e de uma sinclinal.
OBS: Antiforme não é um sinônimo de anticlinal, assim como sinforme não é sinônimo de sinclinal, porém normalmente os antiformes são anticlinais e os sinformes são sinclinais.
 Elementos de uma dobra. Autor da imagem desconhecido.
As dobras são classificadas de várias formas, com base no plano axial podemos dividi-las em:
  • Dobra normal: possuem plano axial subvertical, variando entre 90° e 80°;
  • Dobra recumbente: plano axial sub-horizontal, entre 0° e 10°;
  • Dobra inversa: plano axial inclinada, entre 10° e 80°.
Tipos de dobra com base no plano axial. Autor da imagem desconhecido.

Relevos
Ao sofrerem intemperismo e erosão, as dobras podem formar relevos característicos como o Jurássico, Apalacheano e Alpino. A variedade de relevos existentes deriva de diferentes fatores: resistência dos diversos materiais da dobra, estilo de dobramento e intensidade do intemperismo.
        Relevo Jurássico
O nome desse relevo deriva da região de Jura, na França, onde está localizada a cadeia de montanhas Jura. A cadeia, por sua vez, tem seu nome derivado do período Jurássico, quando suas montanhas foram formadas. Ela está localizada na fronteira entre a França e a Suíça, ao norte dos Alpes.
La Dôle, uma das montanhas da cordilheira jurássica. Autor da imagem desconhecido.

Esse tipo de relevo é o primeiro estágio do relevo em dobras, ele é formado em uma sucessão de dobras simples onde a erosão ainda não atacou tanto as rochas, preservando a estrutura original das dobras.
A evolução desse relevo ocorre da seguinte forma:
  1. A erosão dos flancos das antiformes que forma pequenos vales chamados de ruz;
  2. À medida que esses vales vão se alargando, abre-se um cluse que é a passagem de um rio através do mont (topo da antiforme);
  3.  Ocorre um ravinamento do cluse no antiforme, e o topo dele é erodido (chamado de combe);
  4.  A combe continua sendo erodida o que faz com que ocorra uma inversão do relevo, fazendo as sinclinais se tornarem topo e as anticlinais vale (justamente por conta da erosão da combe)
  5. Com a continuação dos processos erosivos, a tendência é a pediplanação, ou seja, a planificação do relevo, porém, com a continuação da erosão diferencial, o relevo pode evoluir se tornando Apalacheano, que será posteriormente detalhado.Evolução do relevo jurássico. Autor da imagem desconhecido.


Além da cadeia de montanhas Jura outro exemplo desse tipo de relevo é a região de Niquelândia no estado brasileiro de Goiás. Nessa região o anticlinal está arrasado e é composto por metassiltitos e gret (camada dura do flanco voltada para o mont) de quartzito da formação Traíras do Grupo Araí, enquanto isso as sinclinais estão suspensas, elas são mantidas pelo quartzito e cobertas por siltitos feldspáticos e arenitos do grupo Paranoá.
                
Relevo Jurássico em Niquelândia. Autor da imagem desconhecido.
Os seguintes nomes citados acima: ruz, cluse, mont, combe e gret são exclusivos desse tipo de relevo e possuem sua origem na língua francesa.


        Relevo Apalacheano
O relevo do tipo Apalacheano tem esse nome derivado dos montes Apalaches que estão localizados no leste da América do Norte, desde o Alabama nos Estados Unidos até a região de Terra Nova e Labrador no Canadá. Ele é a segunda (e última) fase da evolução do relevo em estruturas dobradas, outros tipos de relevos formados nessas estruturas, como o alpino, são formados em situações muito específicas por isso são próprios de alguns lugares e não fazem parte da evolução que os relevos em dobras normalmente apresentam.
Visão de satélite dos Montes Apalaches. Foto por: Nasa.
Para que o relevo apalacheano possa ocorrer existem algumas condições: o relevo deve estar aplainado (ou seja, já ocorreu todo o processo de evolução do relevo jurássico), as camadas devem ser heterogêneas (algumas mais duras e outras que são mais facilmente erodidas), consequentemente, paralelas umas às outras e deve ocorrer algum tipo de evento tectônico de soerguimento para que a erosão diferencial volte a ocorrer.
No final da evolução o relevo não irá refletir mais a estrutura da dobra e sim as características próprias das litologias, sendo as cristas derivadas das rochas mais resistentes e os vales das rochas menos resistentes, independente se antes estavam em sinformes ou antiformes.
Essa evolução ocorre em algumas etapas:
  1. Com o relevo já plano há a formação de drenagem que flui sobre as camadas de diferentes litologias de rochas;
  2. Esses rios passam a escavar as rochas menos resistentes formando vales paralelos, em que as cristas são formadas pelas rochas mais resistentes e os vales pelas menos resistentes.
Além dos próprios montes apalaches pode-se citar como exemplo a popularmente conhecida como Serra Grande que se localiza em Alvorada, cidade do estado brasileiro do Tocantins. As litologias do local fazem parte do grupo Araxá onde os quartzitos (rochas mais resistentes) compõem as cristas e os xistos (rochas menos resistentes) compõem os vales.
Relevo apalacheano em Alvorada-TO. Autor da imagem desconhecido.

        Relevo Alpino
A cordilheira dos Alpes se localiza na Europa, os países em que ela está localizada são Suíça, Itália, França, Alemanha, Liechtenstein, Áustria e Eslovénia. Sua extensão é de 1.200 km e a largura está entre 50 e 300 km.
A estrutura alpina é relativamente nova, foi formada há, aproximadamente, 2 milhões de anos. Ela é uma estrutura complexa que envolve dobras reversas e deitadas, falhamentos, diferenças litológicas e erosão glacial.
Sua formação começou com a pressão exercida nos sedimentos do mar Tétis pelas placas tectônicas africana e euroasiática, esse mar se localizava entre as duas placas e deixou de existir após isso. Essa atividade tectônica criou uma grande dobra recumbente e, posteriormente, falhas. A erosão e formação de vertentes ocorrem principalmente pela ação de geleiras.
Para preservar a área tão rica tanto culturalmente, quanto naturalmente a Convenção Alpina foi assinada pelos países europeus que a possuem em seu território em 1991.
Região dos Alpes conhecida como “Helvetic Nappes” localizada na Suíça. Foto por: Kurt Stüwe.

Conclusão
Dobras são estruturas geológicas muito interessantes e a geomorfologia relacionada a elas é presente em diversas partes do mundo. Estudar e entender sobre o relevo em que vivemos pode nos ajudar a compreender melhor como ele funciona. Os relevos citados no texto formaram-se durante milhões de anos por conta de muitas condições específicas para que isso acontecesse. Isso demonstra como a passagem do ser-humano é pequena perto de tudo que a Terra já vivenciou.

Referências
http://www.funape.org.br/geomorfologia/cap2/index.php#titulo2.2.1.2c  Acessado em: 02/03/2018
http://www.cesadufs.com.br/ORBI/public/uploadCatalago/15502016022012Geomorfologia_Estrutural_Aula_8.pdf Acessado em: 02/03/2018
http://www.neotectonica.ufpr.br/aula-geologia/aula10.pdf Acessado em: 02/03/2018
http://www.neotectonica.ufpr.br/aula-geologia/aula8.pdf Acessado em: 02/03/2018
http://www.fgel.uerj.br/dgrg/webdgrg/disciplinas/estrutural/dobras.pdf Acessado em: 02/03/2018
https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/3291666/mod_resource/content/1/AULA%2004.pdf Acessado em: 02/03/2018
https://www.suapesquisa.com/geografia/montes_apalaches.htm Acessado em: 02/03/2018
https://pt.wikipedia.org/wiki/Conven%C3%A7%C3%A3o_Alpina Acessado em: 05/03/2018
https://en.wikipedia.org/wiki/Geology_of_the_Alps Acessado em: 05/03/2018
http://www.geologyin.com/2016/09/10-amazing-geological-folds-you-should.html Acessado em: 06/03/2018
https://www.myswitzerland.com/en/jura-heights-and-alpine-views.html Acessado em: 06/03/2018
http://www.geologyin.com/2015/09/how-geologists-determined-way-that.html Acessado em: 06/03/2018
Material do professor José Martin Ucha: Geomorfologia - capítulo 5: dobras, domos e falhas X Relevo
TORRES, Fillipe Tamiozzo Pereira. Introdução à geomorfologia. São Paulo: Cengage Learning, 2012.
GUERRA, Antonio José Teixeira; CUNHA, Sandra Baptista da. Geomorfologia: Uma Atualização de Bases e Conceitos. 10a edição. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.
TEIXEIRA, Wilson; FAIRCHILD, Thomas Rich; TOLEDO, M. Cristina Motta de; TAIOLI, Fábio. Decifrando a Terra. 2a edição. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2009.


Artigo escrito por Isabel Schulz e Revisado por Isabela Rosario. 

6 comentários:

  1. Muito bom artigo. Parabéns a quem escreveu!

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    1. [COMENTÁRIO DO ADMINISTRADOR] Agradecemos pela sua opinião! Ela muito valioso para os escritores do SG!

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  2. Belo texto! Muito informativo e interessante!

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    1. [COMENTÁRIO DO ADMINISTRADOR] Agradecemos pelo seu retorno, é de grande valia para os escritores do SG!

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  3. É um texto demasiadamente bom que demonstra uma grande habilidade de escrita da autora.

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    1. [COMENTÁRIO DO ADMINISTRADOR] Agradecemos pelo seu feedback, Eliud!

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