Sobre Geologia

01/01/2022

Bem Vindos ao Sobre Geologia!
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Este blog foi criado em 14 de agosto de 2015, com o intuito de ajudar e compartilhar assuntos e temas ligados à Geologia com alunos, professores e entusiastas desta ciência, de forma gratuita e acessível.


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08/07/2018

#Climas: Introdução à Climatologia
22:270 Comments

A diversas paisagens que são observadas mundo afora são produtos das interações entre o sistema de tectônica de placas – que atua na construção do relevo – e do sistema de climas, que contribuem para o seu desgaste. No post de hoje, conheceremos mais sobre a Climatologia, fatores e elementos do clima e a importância de sua compreensão! 

Domínio de mares de morros, que abrange Ouro Preto e outros munícipios de Minas Gerais. Esse domínio é característico de áreas de climas quentes e úmidos. Fonte: http://www.amda.org.br/?string=interna-projetos&cod=13

Introdução

A climatologia é o estudo científico dos climas, que abrangem grandes extensões, por um longo período de tempo. Apesar de geralmente os conceitos de tempo e clima serem abordados como análogos, existe um fator que os distingue: a escala de tempo cronológico. Enquanto o tempo meteorológico se refere às condições atmosféricas em um dado instante e local, entende-se por clima como uma média das variações do tempo meteorológico por um período de 30-35 anos. 
Na Climatologia, frequentemente são usados elementos e fatores do clima para descrever o ambiente atmosférico. Os principais elementos que constituem os fatores climáticos são: temperatura, umidade, pressão atmosférica e radiação solar.
A temperatura é a intensidade do calor atmosférico em um determinado lugar, que pode ser mensurado através das escalas Fahrenheit (°F) ou Celsius (°C).
A umidade – geralmente expressa em porcentagem – é quantidade de vapor d’água existente na atmosfera e é proveniente dos processos de evapotranspiração das plantas (transferência de vapor d’água das plantas e do solo para a atmosfera).  
Já a força exercida pelo ar sobre uma superfície, definida como pressão atmosférica é expressa, geralmente, em milibares (mb). A pressão varia de acordo com a altitude, a temperatura e a latitude. Em locais mais altos, a pressão atmosférica é menor, pois quanto mais distante do centro da Terra (influência maior da força da gravidade) um ponto é, menor será a força exercida e, consequentemente, menor será a pressão que a atmosfera exercerá sobre ele.  

Monte Everest, situado na fronteira Nepal-Tibete. A pressão atmosférica na altitude de 8,85km corresponde a 250mmHg, enquanto ao nível do mar, a pressão atmosférica é de 760mmHg. Informações: Blamb / Shutterstock

A temperatura e a latitude também interferem na pressão atmosférica: quanto maior a temperatura, menor é a densidade do ar e, portanto, menor será a pressão. Em contrapartida, quanto menor for a temperatura, mais unidas estarão as partículas, aumentando sua densidade e, assim, a pressão aumentará. Em relação à latitude, a pressão atmosférica se comporta de maneira diretamente proporcional: locais de alta latitude apresentarão uma maior pressão atmosférica e locais de menor latitude, menor pressão atmosférica.  
Radiação solar é a forma pela qual a energia solar chega até a superfície terrestre. Nesse processo, cerca de 70% da energia solar é absorvida e 30% escapa no espaço exterior. A radiação infravermelha que chega à Terra é de suma importância pois é ela que irá gerar a elevação das temperaturas.
Os fatores climáticos são latitude, altitude, vegetação, maritimidade e continentalidade, correntes marítimas, correntes de ar e relevo. Estes, interferem nos elementos climáticos e nos climas.


Dinâmica das massas de ar atuantes na América do Sul durante o inverno. Fonte: marcosbau.com.br/geobrasil-2/climas-do-brasil/

Climatologia Brasileira 
A maior parte do território brasileiro (cerca de 90%) está localizado entre os trópicos de Câncer e Capricórnio e, por isso, ele é considerado um país tropical. A grande extensão territorial do país contribui para uma multiplicidade de tipos climáticos e, por sua vez, de paisagens naturais. 
Diversidade de climas no Brasil. Fonte: http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=1257
Os estudos acerca da climatologia tropical eram baseados nas perspectivas do conhecimento climático dos países de latitude média até por volta dos anos de 1970. Após a independência (1822), o Brasil obteve maior representatividade no cenário econômico mundial e apresentou um acervo considerável de documentos relacionados à caracterização dos seus climas e da atmosfera. Esses documentos são recentes, levando em consideração que os trabalhos mais aprofundados coincidem com a explosão da cafeicultura, que datam dos primórdios do século XX. Esses estudos contribuíram significativamente para estruturar os dados meteorológicos, com foco para a porção centro-sul do país. Nessa época, foram criados o Departamento Nacional de Meteorologia (DNMET), atual Instituto Nacional de Meteorologia (INMET). Com a criação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 1940, a climatologia brasileira foi impulsionada e, na década seguinte, os estudos climáticos começaram a ser deslocados para as regiões Nordeste e Centro-Oeste. A partir de 1960 e 1970, os trabalhos climatológicos foram dirigidos nas perspectivas regionais e locais, além da preocupação com a questão ambiental. A evolução tecnológica no campo da climatologia permitiu grandes avanços nos últimos 20 anos, no entanto, ainda são poucas as áreas detalhadamente investigadas do Nordeste, Norte e Centro-Oeste do país.
Clima X Geologia                                                                           
A compreensão dos diversos tipos de clima é fundamental para o entendimento das interações entre os climas e os processos geológicos, como a tectônica de placas, formação de montanhas e erosão. As diferenças climáticas globais também estão associadas aos tipos de intemperismo: em locais onde predominam climas úmidos, com altas taxas de pluviosidade, o intemperismo químico será sobressalente; enquanto onde predominam climas secos, o intemperismo físico será preeminente.
É importante ressaltar que os processos geológicos também podem alterar os climas, como acontece no caso dos processos de vulcanismos que liberam gases, como o dióxido de enxofre (SO2) e o dióxido de carbono (CO2). Depois da erupção, o SO2 reage com o vapor d’água na atmosfera para formar aerossóis (pequenas gotículas suspensas no ar e de alta mobilidade) de ácido sulfúrico. Uma camada de aerossóis pode atuar como um “efeito estufa”, impedindo que parte da radiação térmica escape, causando um aquecimento da superfície. Ademais, o impacto climático gerado por uma erupção depende também da altitude a que os voláteis serão ejetados e da latitude do vulcão.
Erupção em El Chicón, México, 1982. 7,5.1011kg de material foi ejetado. A temperatura no Hemisfério Norte foi alterada em -0,2ºC. Imagem: Robert I. Tilling (http://www.geotimes.org/nov07/article.html?id=feature_danger.html)
Conclusão
É fundamental compreender as dinâmicas locais e globais do clima, pois a Climatologia auxilia no entendimento de diversos processos físicos, químicos, biológicos e geológicos que interagem na grandiosidade do sistema Terra-vida. Ademais, do ponto de vista socioambiental, é de extrema importância compreender o que gera as mudanças climáticas para a vida na Terra e investigar suas consequências. 

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Artigo escrito por Amanda Couto e revisado por Carlos Eduardo
Referências
MENDONÇA, Francisco; DANNI-OLIVEIRA, Inês Moresco. Climatologia: noções básicas e climas do Brasil. São Paulo: Oficina dos Textos, 2007. 206 p.
CHARLES, Cockell et al. (Org.). Sistema terra-vida: uma introdução. São Paulo: Oficina dos Textos, 2011. 344 p.
https://www.ige.unicamp.br/terrae/V12/PDFv11/T056-1.pdf acesso em 07/07/2018
http://www.cprm.gov.br/publique/Redes-Institucionais/Rede-de-Bibliotecas---Rede-Ametista/Canal-Escola/Elementos-Que-Caracterizam-o-Clima-1267.html acesso em 07/07/2018
http://www2.icnf.pt/portal/ap/pnpg/geo acesso em 07/07/2018
http://climasdomundo.blogspot.com/2009/08/elementos-do-clima-sao-os-atributos.html acesso em 07/07/2018
http://www.professormendoncauenf.com.br/ag_elementosmeteorologicoseclimaticos.pdf acesso em 07/07/2018
http://www.mundogeomatica.com.br/cl/apostilateoricacl/capitulo8-eaporacaoevapotranspiracao.pdf acesso em 07/07/2018
https://novaescola.org.br/conteudo/2206/por-que-a-pressao-atmosferica-muda-com-a-altitude  acesso em 07/07/2018
https://geografalando.blogspot.com/2012/11/normal-0-21-false-false-false-pt-br-x.html acesso em 08/07/2018
https://novaescola.org.br/conteudo/2206/por-que-a-pressao-atmosferica-muda-com-a-altitude acesso em 08/07/2018


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25/06/2018

Geologia Marinha - Uma breve introdução
19:450 Comments
Ainda que aproximadamente 70% da superfície terrestre seja recoberta por água, pouco se sabe sobre os oceanos. Fora as grandes profundidades inexploradas e a flora e fauna ainda por serem descobertas, não é apenas isso que guardam nossos oceanos. Desse modo, com uma união entre os estudos da geologia e das nossas áreas oceânicas, costeiras e marinhas, temos o que é chamada de Geologia Marinha — a especialidade geológica sobre a qual falaremos hoje!

Uma fotografia do complexo ecossistema marinho e sua paisagem. Foto por: Christopher Robinson.

Introdução

A Geologia Marinha é uma ramificação da geologia, desenvolvida para focar seus estudos em fundos oceânicos e marinhos, zonas costeiras, e mesmo alguns lagos e estuários. Através dos conhecimentos da oceanografia, geologia e, em alguns casos, da biologia, foi possível edificar uma ciência e desenvolver estudos que traziam descobertas à respeito da própria mecânica da Terra.
Mesmo os geólogos mais antigos se perguntavam qual seria a aparência dos fundos oceânicos caso não houvesse água os recobrindo. Segundo o Serviço Geológico do Estados Unidos (USGS), geólogos no início do século XIX, por exemplo, acreditavam que, no fundo dos oceanos, se encontraria apenas uma camada plana de lama — algo que, hoje sabemos, não é verdade.
Durante a Segunda Guerra Mundial, houve um desenvolvimento muito maior dos estudos dos relevos oceânicos. Foram projetadas tecnologias muito mais avançadas, que tinha intenção de identificar mais facilmente submarinos nos fundos dos oceanos.
As crostas oceânicas costumam ter menores espessuras que as crostas continentais, numa faixa de 5 a 10km. Sua composição é formada principalmente de rochas basálticas e gabroicas, ricas em cálcio e ferro, e silicatos magnesianos. Devido à sua composição rica em ferro, essas crostas são mais densas que crostas continentais — por isso, em zonas de colisão entre elas, as oceânicas passam pelo processo de subducção, dando continuidade aos processos de tectonismo.

A Importância de Geologia Marinha

Como mostramos no artigo "A Teoria da Tectônica Global", as placas oceânicas são uma parte muito importante dos processos ocorridos a todo momento na tectônica global, sendo constantemente destruídas e reconstruídas, de acordo com os movimentos divergentes e convergentes das placas.
Os estudos nos fundos dos oceanos foram de uma contribuição essencial para a fundamentação da Teoria da Tectônica Global. No fim dos anos 1940 e início da década seguinte, expedições comandadas principalmente por pesquisadores das universidades de Princeton e Columbia (EUA) mapearam e coletaram amostras do fundo do oceano Atlântico. Esses trabalhos permitiram mapear as Cadeias Meso-Oceânicas, um sistema que chegava a alcançar 84.000 km e apresentando uma largura na escala de 1.000 km. Além disso, nessa dorsal, se encontrou a presença de vales num intervalo de 1 a 3km, apontando à presença de rifte — assim, um regime tensional. Também se constatou temperaturas maiores nas rochas da dorsal meso-oceânica que no resto das placas oceânicas, sendo uma região de forte atividade vulcânica e sísmica. Se a dorsal, de fato, dividisse a crosta oceânica em duas, seria um ponto forte à favor da teoria da deriva continental.
À partir da década de 1950 e 1960, com o desenvolvimento tecnológico e da geocronologia, foi possível provar que a teoria de que as rochas do fundo oceânico são as mais antigas da Terra estavam erradas. Na verdade, costumavam apresentar idade bem mais jovens, não ultrapassando 200 milhões de anos. Desse modo, mais uma vez, os estudos da geologia dos oceanos ajudavam a desenvolver as teorias mais básicas da nossa ciência.


Distribuição das idades geocronológicas em milhões de anos, mostrando as rochas mais jovens estando mais próximas à dorsal meso-oceânica do Atlântico Norte. Fonte: Decifrando a Terra.
Além disso, esses estudos são, há décadas, muito relevantes, para a extração e beneficiamento de recursos minerais, conhecimentos sobre seu próprio domínio territorial, expansão marítima e até mesmo para  a biologia — pois o ambiente é um fator indispensável para a análise de uma espécie.

Relevo Oceânico

A morfologia das crostas oceânicas é uma importante base de estudos da geologia marinha e oceanografia. A posição da área de estudos influencia diretamente no tipo de rochas encontradas, entre outras informações que podem ser importantes para a exploração de petróleo, por exemplo, quando falamos das bacias oceânicas.
Fonte: Tom Garrisson (2010).
Podemos dividir o relevo oceânico em algumas categorias:

As plataformas continentais correspondem às porções do fundo oceânico que margeiam os continentes, começando na linha da costa e se estendendo até, aproximadamente, 200m. Costumam ser bem planas, com baixa declividade — por isso "plataformas" continentais —, e possuem larguras variáveis. Segundo o Serviço Geológico Nacional do Brasil (CPRM), essas larguras podem variar de 70 a 80km, podendo alcançar até centenas de quilômetros. Por exemplo, as plataformas de oceanos como o atlântico, onde as margens são passivas, essas larguras costumam ser maiores.
Essas plataformas costumam ser de extrema importância para a exploração de recursos minerais, pois acumulam sedimentos carregados pelo vento, rios e até mesmo geleiras, em alguns casos. No Brasil, por exemplo, são muito importantes para a extração de petróleo e para o ecossistema do mar, pois, nessas regiões, os raios solares atingem todo o fundo marinho, promovendo luz para a fotossíntese de plantas e outros microorganismos.

Os processos de transporte e deposição de sedimentos no meio marinho. Fonte: Decifrando a Terra (2009)


O talude continental, ou vertente continental, é região com inclinação mais acentuada do relevo continental — segundo a CPRM, aproximadamente 1m de declive para cada 40m de extensão —, e se estende até as chamadas planícies abissais. Pode ser considerada uma faixa de transição, e não possui um relevo regular, podendo apresentar vales e até mesmo cânions.
Devido à sua alta declividade, apresentam o que chamamos de correntes de turbidez, uma corrente densa de sedimentos variados que pode ser comparada à uma avalanche debaixo d'água. A constante deposição no lado da plataforma, associada à erosão com os vales, cânions e inclinação do talude acabam por gerar uma instabilidade, que faz com que pacotes inteiros de sedimentos deslizem ou desabem em rolamento. Essas correntes dão origem a novas rochas muito características, os turbiditos. Dependendo da forma como o pacote de sedimentos desceu o talude, é possível observar uma sequência de deposição de sedimentos finos a médios (geralmente areias e argilas), com estratificação rítmica.

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Turbiditos.  Foto por: Brian Romans.

Na base dos taludes, encontramos os sopés continentais — elevações de declinação intermediária entre a da plataforma continental e a do talude. Elas se estendem entre 3000 e 5000m de profundidade, e a maior parte dos sedimentos que a compõem são de origem continental. Essa associação de plataforma, talude e sopé são chamados de margem continental, embora sua maior parte esteja submersa.
Já a região mais distante do continente é a chamada planície abissal. Essas áreas são extensas e profundas, de topografia aproximadamente plana, geralmente com mais de 4000m de profundidade. Elas começam no fim da elevação continental, e se estendem até os relevos íngremes das cordilheiras oceânicas. Os raios solares não alcançam o fundo das planícies, por isso, as temperaturas são muito baixas e as formas de vida são adaptadas à falta de luz. Essas regiões são interrompidas em algumas localidades por séries de montes e montanhas submarinas — elevações isoladas que podem alcançar até 1000m de altura.
Além disso, temos as chamadas fossas oceânicas — uma importante feição presente nas zonas de subducção das placas. As fossas constituem depressões alongadas e estreitas, com laterais de alta declividade. Atualmente, a fossa mais profunda já registrada é a Fossa das Marianas, descoberta em 1960, com 10920m de profundidade — ou seja, tem mais metros em profundidade do que o Monte Everest, maior montanha do mundo, tem em metros de altura (aproximadamente 8850 metros).
Observa-se também, no limite das planícies abissais, as cordilheiras oceânicas. São feições longas, fraturadas, escarpadas e construídas pelos processos vulcânicos e tectônicos de movimentação das placas. As regiões centrais dessas cordilheiras correspondem às regiões de maior atividade tectônica dos fundos oceânicos atuais, com fraturamentos e intrusão de diques de basalto, além de atividades hidrotermais. As partes emersas dessas montanhas são também chamadas de ilhas oceânicas, como o arquipélago de Fernando de Noronha, por exemplo.

Vista aérea da ilha Trindade (foto: Simone Marinho/commons.wikimedia.org)
Ilha da Trindade — ilha localizada no Oceano Atlântico, considerada parte do território brasileiro. Hoje, é utilizada como base militar da marinha. Foto: Simone Marinho/commons.wikimedia.org

Baía dos Porcos, em Fernando de Noronha, Pernambuco
Baía dos Porcos, no arquipélago Fernando de Noronha - Pernambuco. Foto por: Alex Uchoa

Conclusão

Os estudos da geologia marinha, embora tendo começado a menos de um século, têm sido extremamente relevantes para a nossa sociedade. Tendo avançado de conhecimentos de guerra para embasamento científico para extração de petróleo, por exemplo, esse ramo da geologia se edificou no campo da ciência e nos trouxe mais conhecimento sobre a Terra e seu funcionamento como um todo. O ser humano começou sua jornada pelo espaço, mas, infelizmente, ainda sabemos muito pouco sobre nossos próprios oceanos — e, talvez, através da geologia marinha e dos avanços tecnológicos, isso possa mudar!



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Referências

https://www.usgs.gov/faqs/what-marine-geology-0?qt-news_science_products=0#qt-news_science_products
https://walrus.wr.usgs.gov/pubinfo/margeol.html
TEIXEIRA, Wilson. FAIRCHILD, Thomas Rich. TOLEDO, M. Cristina Motta de. TAIOLI, Fabio. Decifrando a Terra - 2a edição. Companhia Editora Nacional. São Paulo. 2009
http://www.cprm.gov.br/publique/Redes-Institucionais/Rede-de-Bibliotecas---Rede-Ametista/Canal-Escola/Estrutura-Interna-da-Terra-1266.html
http://www.cprm.gov.br/publique/Redes-Institucionais/Rede-de-Bibliotecas---Rede-Ametista/Canal-Escola/Relevo-Oceanico-2624.html
http://sigep.cprm.gov.br/glossario/verbete/corrente_de_turbidez.htm
http://sigep.cprm.gov.br/glossario/verbete/turbidito.htm
http://sigep.cprm.gov.br/glossario/verbete/planicie_abissal.htm
https://educacao.uol.com.br/disciplinas/geografia/relevo-submarino-plataforma-talude-e-outras-unidades.htm


Artigo escrito por Isabela Rosario
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17/06/2018

Teoria “Snowball”
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Observando o planeta Terra hoje, é muito difícil imaginar que ele já foi totalmente coberto por gelo, principalmente porque sabemos que os ambientes glaciais correspondem a apenas 10% da superfície terrestre (restrito aos polos Norte e Sul e ao topo das altas montanhas). Entretanto, a teoria “Snowball” (“bola de neve”) diz que uma glaciação intensa no período proterozoico fez com que a Terra ficasse totalmente coberta por gelo. No artigo de hoje, trataremos dessa hipótese que está a cada dia mais próxima da sua confirmação.
Representação gráfica da Terra durante o seu período "bola de neve".
Fonte: http://www.bbc.com/earth/story/20150112-did-snowball-earth-make-animals
Introdução:
Glaciações são períodos durante os quais boa parte da superfície da Terra fica coberta por gelo, sendo também conhecidas como “eras do gelo” ou “idades glaciais”. A idade glacial mais antiga de que se tem conhecimento ocorreu há 2,4 bilhões de anos atrás, e a mais recente há 11.500 anos.  Glaciações são frequentes na história do planeta, e acredita-se, inclusive, que elas representam um ciclo entre períodos glaciais e inter-glaciais.
Porém, durante muitos anos, mesmo com o conhecimento de que glaciações são frequentes, não era possível crer que em algum momento os trópicos haviam congelado também. Isso porque as leis naturais da época diziam que, devido à presença do Sol, os trópicos nunca poderiam passar por uma glaciação.
A teoria “Snowball” afirma que, diferente das outras glaciações, durante o período proterozoico, toda a Terra ficou coberta de gelo, inclusive os trópicos. Essa ideia dividiu os cientistas e ainda hoje causa muita discussão entre a comunidade das geociências.

Tempo geológico:
A última glaciação da época pré-cambriana ocorreu no proterozoico, entre 750 e 600 milhões de anos atrás. Durante esse período de tempo, fases de glaciação intercalaram-se com fases quentes. Acredita-se que a Terra “bola de neve” ocorreu nesse período, em uma dessas glaciações que se alastrou por todo o globo, tornando a temperatura média do planeta -40°C, aproximadamente, entre 650 e 600 milhões de anos atrás.
Escala do tempo geológico (para entender mais clique aqui).
Fonte: Geocultura.net

Evidências:
As maiores evidências da real ocorrência dessa bola de neve são os tilitos, que estão espalhados em todos os continentes terrestres. Tilitos são rochas sedimentares originadas da litificação dos clastos glaciais, o till. A característica própria do till é o seu pobre selecionamento, ou seja, tanto sedimentos grandes quanto pequenos se encontram juntos. Isso ocorre porque o poder de transporte da geleira é muito grande, então ela arrasta todos os tipos de sedimento e eles são depositados com o seu derretimento.
Isso foi observado pela primeira vez em um deserto da Namíbia (país que se encontra na região tropical), pelo geólogo Paul F. Hoffman, onde matacões, fragmentos de rocha com pelo menos 25cm, segundo a escala Wentworth (leia mais sobre esse assunto aqui), se encontravam entre sedimentos mais finos. Outros tipos de agentes transportadores, como a água e o vento, não teriam como transportar um fragmento tão grande como um matacão e, muito menos, junto com sedimentos tão finos.
Tilito encontrado na namíbia.
Fonte: snowballearth.org
Essas características não foram somente observadas na Namíbia, mas também em diversos países do mundo. Ao serem estudadas as idades dessas rochas, todas apresentavam período de formação igual: 600 milhões de anos atrás, durante o período proterozoico.
Essas descobertas fizeram com que cada vez mais a teoria fosse levada em consideração, mas, ao mesmo tempo, muitos contrapontos apareceram. Outra explicação para a presença desses tilitos em áreas tropicais era a de que os movimentos das placas tectônicas foram responsáveis por transportar os continentes para as áreas polares, onde geleiras se formaram, antes de transportar e depositar sedimentos. Essa ideia não só explicava essas rochas, como respeitava as leis naturais da época: caso estivesse correta, os trópicos nunca teriam congelado.
Existe uma forma de descobrir onde a rocha foi originalmente formada que poderia dar mais uma evidência à teoria, ou acabar de vez com ela. Essa forma é através do magnetismo. As rochas possuem minerais magnéticos que possuem uma direção magnética que se conserva, ou seja, se mantém o mesmo desde sua formação. Essa direção sempre acompanha o campo magnético do centro da Terra, então uma rocha formada nos polos teria uma direção vertical, enquanto uma formada no equador teria direção horizontal.
Analisando através de maquinas especializadas diversas rochas do mundo todo, foi descoberto que as rochas que se encontravam em países tropicais foram formadas nos trópicos, e não nos polos. Era mais um passo que a teoria Snowball dava para ser aceita pelos cientistas — todavia, ainda não se entendia como os trópicos foram congelados mesmo com o calor do sol.

Como a Terra congelou?
O climatologista russo Mikhail Budyko, durante a década de 1950, percebeu que grande parte do calor da Terra é mantido por causa dos oceanos. Por serem escuros, eles absorvem a energia solar, que mantém a temperatura do planeta. Já as geleiras, que são claras, refletem a luz solar, portanto, quanto mais geleiras o planeta tiver, mais frio ele vai se manter.
Com essa observação, foi possível entender porque os trópicos foram congelados, embora, ao mesmo tempo apresentasse um contraponto a teoria. Se quanto mais gelo a Terra têm, mais fria ela fica, como as temperaturas conseguiram aumentar e se tornarem amenas de novo?
A resposta para essa pergunta está nos vulcões. O gelo é capaz de cobrir apenas a superfície da Terra, mas o interior continua absurdamente quente, fazendo com que, desse modo, os vulcões sobrevivessem ao congelamento. Entretanto, não foi a lava que derreteu o gelo. A quantidade de magma que foi expelida pelos vulcões da época não é suficiente para derreter o gelo que cobria completamente o planeta.
O real responsável para a mudança climática do mundo (assim como hoje), foi o gás carbônico. Vulcões expelem gás sempre, e o principal gás expelido é o CO2, responsável pelo efeito estufa — que mantém a temperatura do planeta alta. Durante os 10 milhões de anos que duraram essa glaciação, o gás se acumulou na atmosfera, chegando a representar 10% dela. A título de comparação: hoje ele representa menos de 1%.
A água da chuva é capaz de limpar parte do gás carbônico da atmosfera, mas como os oceanos estavam cobertos por gelo, não existia água líquida para evaporar, então não chovia. Foi essa falta de chuva a responsável pela acumulação. A temperatura da Terra aumentou novamente, ao ponto de ser capaz de derreter o gelo.
Uma forte evidência da grande quantidade de dióxido de carbono na atmosfera durante a glaciação é encontrada nos depósitos de tilito, espalhados pelo mundo. Em muitos deles são encontradas camadas de calcário e/ou dolomita (rochas carbonáticas) depositadas logo acima. Esse tipo de organização é vista nos desertos da Namíbia, mas também é encontrada no Brasil. As bordas dos grabens Pimenta Bueno e Colorado, ambos localizados na bacia Parecis, que por sua vez se encontra no cráton Amazônico, apresentam esse tipo de depósito.
Contato entre diamictito glacial (sinônimo de tilito) - "glacial diamictite" e rocha carbonática - "cap-carbonate".
Fonte: snowballearth.org

Contra-argumentos da biologia:
A teoria finalmente parecia estar correta, mas, ao ser apresentada nas universidades, foi contestada por biólogos. Existiam evidências no mesmo período da existência de cianobactérias nos oceanos, seres-vivos que precisam da luz solar para realizar fotossíntese. Com os oceanos completamente cobertos por uma grande camada de gelo, a luz solar não seria o suficiente para a geração de energia.
O astrobiólogo Chris McKay, especializado em seres vivos que vivem em ambientes extremos, decidido a descobrir se a sobrevivência das cianobactérias seria possível em uma Terra congelada, viajou até os polos para estudar as cianobactérias dos oceanos cobertos de gelo que ainda existem hoje. O resultado foi que, não só as cianobactérias, como outros seres vivos, a exemplo de alguns tipos de algas, eram capazes de sobreviver nessas condições extremas.

Conclusão:
A Teoria Snowball ainda é somente uma teoria, mas apresenta evidências claríssimas de que pode ser uma realidade. É muito respeitada no meio geológico e os estudos devem evoluir ainda mais para uma resposta definitiva.

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Referências:
http://www.bbc.co.uk/science/earth/earth_timeline/snowball_earth Acessado em: 08/06/2018
https://www.britannica.com/science/ice-age-geology Acessado em: 08/06/2018
https://www.britannica.com/science/glacial-stage Acessado em: 08/06/2018
http://sigep.cprm.gov.br/glossario/verbete/matacao.htm Acessado em: 10/06/2018
http://www.snowballearth.org Acessado em: 10/06/2018
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0895981116302346Acessado em: 10/06/2018
PRESS, Frank; SIEVER, Raymond; GROTZINGER, John; JORDAN, Thomas H.Para Entender a Terra.4aedição. Porto Alegre: Bookman, 2006.


Artigo escrito por Isabel Schulz e revisado por Isabela Rosario
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